09 novembro 2011

Trecho Resumo de Ana

Na manhã do dia em que morreu, Ciro acordou bem disposto e decidiu ir trabalhar mais cedo. Fez a barba que estava comprida, tomou uma ducha no quintal, vestiu uma calça limpa e a camisa branca que rescendia a goma de camomila, foi buscar as sacolas na despensa da cozinha e saiu para a rua iluminada. Anita e as filhas já tinham ido para o trabalho e ele deixou a chave com uma vizinha, que ficou admirada com a sua disposição e lhe desejou boa sorte.
Pela janela aberta do ônibus que fazia as curvas da estrada com os pneus cantando no asfalto entravam as rajadas de vento da antiga represa da light e ainda sentindo o vento no rosto ele desceu no ponto próximo à destilaria clandestina. Espantou-se com a leveza das pernas nas picadas do mato e ao respirar o cheiro das magnólias e das bolas de mamona que estouravam no calor foi sacudido por um choro convulsivo, que saía sem causa visível e era doce e tenaz. Avistou a meia distância o lugar da casa arruinada de Baltazar Fernandes e teve de parar antes de pôr o pé na tábua estreita que dava acesso ao outro lado de um regato. O sol produzia lâminas de luz sob suas botas de borracha e ele recebia aquele instante como uma espécie de trégua. Assistiu a passagem de tudo o que havia vivido e só soube o que aquilo significava quando, no início da tarde, esteve com Anita pela última vez. Antes disso fez as entregas, despediu-se dos clientes mais chegados, no caminho da padaria passou os dedos pelo reboco do mosteiro de São Bento, comprou dois litros de leite e um quilo de pão e abriu a porta da casa ao meio-dia. Tomou um copo de leite na cozinha e foi até o barracão dos fundos para descansar. Anita chegou pouco depois e ao atravessar a soleira percebeu que Ciro estava tendo um enfarte. Ainda foi capaz de desabotoar a camisa empapada de suor, procurou reanimá-lo chamando-o pelo nome e no momento em que ele abriu os olhos e os músculos do rosto se descontraíram, a única coisa que ouviu direito foi uma pergunta - se ela sabia que ele gostava dela...
[...]
... Os muros do cemitério da Consolação, na praça dos Viajantes, foram caiados de ponta a ponta e refletem o sol como um banco de areia. [...] Pelas grades de ferro é possível distinguir uma fileira de túmulos baixos, pintados na base com uma tinha azul-celeste que acentua a cor viva da cal. Quando o caixão é finalmente transportado para o interior do cemitério, agarro uma das alças e constato que o revés não abandonou Ciro até o fim, pois é numa tumba sem lápide que ele some sob a terra e só no dia seguinte chega a notícia de que o corpo foi enterrado na cova errada.

Modesto Carone

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