"Preciso de um cigarro", ele pensava. A ansiedade que lhe tomava por inteiro era tanta, que nem mesmo sua promessa era forte o bastante. "Preciso de um cigarro", ele pensava. Levantou do sofá que se encontrava afundado a tempo indeterminado e seguiu até o banheiro. Seu organismo suplicava por um cigarro. Lavou o rosto e percebeu que seu nariz sangrava. Lavou mais uma vez o rosto na esperança de o sangue parar de escorrer. Tarefa realizada com sucesso. Andou até seu quarto, colocou uma camisa e uma jaqueta, calçou um sapato qualquer e saiu pela porta da frente.
Ela acordou, e percebeu que estava sozinha. Ele havia saído outra vez. Toda vez era a mesma coisa, saía caminhar pela madrugada e a largava ali, sozinha, sem ninguém para dividir a cama. Levantou, foi até o banheiro, e lavou o rosto. As olheiras bem definidas, abaixo dos olhos, e aquela expressão cansada eram o que acompanhava o rosto da jovem. Foi até a cozinha, e pegou um copo d'água. Sentou-se na cadeira e começou a chorar. As lágrimas corriam soltas, os soluços eram audíveis. Palavras sem nexo saiam de sua boca, ao mesmo tempo que tentava puxar o ar para seus pulmões. Por quanto tempo se seguiu a cena? Não se sabia. Mas as lágrimas não paravam de correr, e saíam com toda a força possível. Parou. Ouviu um som vindo da janela, e seguiu para lá. Olhou para baixo e tudo que se via e ouvia eram vozes alteradas e dois homens se estranhando. Era ele. Pelo jeito havia bebido demais, e pela terceira vez nessa semana havia arranjado confusão. Seguiu para o quarto.
Não entendia muito bem o que o homem ao seu lado dizia, mas para ele as palavras pareciam ofensivas e hostis. Respondeu a altura. Assim se seguiu a confusão. Os vizinhos saíam nas janelas para ver o que acontecia, e os dois homens no chão brigando. Ninguém ousou fazer nada e muito menos chamava a polícia. Esse espetáculo acontecia toda semana e a polícia já havia parado de ir para aqueles lados a muito tempo. Levantou-se do chão, e dessa vez, tudo que conseguiu foi um olho roxo e um arranhão no braço. Nada de mais. Subiu até seu apartamento e abriu a porta. Chamou por ela, mas ninguém respondeu. Seguiu até o quarto e não encontrou ninguém. Ela havia dito que iria... e foi. Acendeu seu cigarro que acabara de comprar. No dia seguinte ela voltaria, ela sempre voltava.
Uma semana e nada. Duas, três, havia mais de um mês e ela não voltou. Dessa vez era definitivo. Ele não acreditava, ou não queria acreditar. A cada semana que passava, se afogava em mais uma garrafa de uísque, e já não era visto sóbrio. Desconhecia essa condição. Em uma noite qualquer, andando pelas ruas, viu uma silhueta conhecida. Era ela. Resolveu ir até lá, mas apareceu uma segunda silhueta, essa masculina, que a abraçou. Pensou em ir até lá mais uma vez, mas percebeu a expressão da jovem. Já não existiam mais as olheiras, o olhar cansado. Ela estava mais bonita que nunca. Ela havia dito que um dia iria... e foi. E ele, teve de aceitar.
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