18 dezembro 2012

E os sonhos, onde estão? Talvez perdidos por aí... será possível encontrá-los?
Ele não podia sonhar. Triste fato que lhe acompanhava desde sempre. Nunca sonhou absolutamente nada. E não se tratava do tipo de pessoa que sonha e na manhã seguinte não se recorda. Simplesmente não sonhava. Mas isso tinha um porque: ele não dormia. Nunca dormiu, nunca sentiu sono, cansaço. Irônico é o fato de se cansar de não estar cansado. Era um mistério.
Mas naquele lugar tudo era misterioso, nada fazia sentido. Se bem que as coisas não costumam fazer sentido em lugar nenhum. Rua Nada, nº 0, Lugar Nenhum, um bom endereço talvez. Não conhecia ninguém e ninguém o conhecia. Vivia no vazio desde sempre, desde que se recordava. Nem de seus pais se lembrava muito, mas afinal, sua memória não era muito boa. Não era bom em nada, mas não tinha problema, pois não existia o melhor em alguma coisa. Mas em alguma coisa ele era bom: não ser. Vivia uma vida pacata e solitária. Não trazia consigo nem ao menos o seu nome, e a única coisa que lhe acompanhava era o silêncio.
Seguia por alguma rua qualquer em um dia qualquer. Uma lata de lixo caiu e rompeu o silêncio. Assustou-se. Fazia muito tempo que não houvia nada parecido, mas fazia muito tempo que não ouvia absolutamente nada. Ficou observando a lata, com todo aquele lixo no chão e um gato saindo de dentro. Mais um susto. Não se lembrava de ter visto um animal daquele tipo alguma vez na sua vida. Tivera um cachorro certa vez, mas o mesmo sumiu algum tempo atrás. Olhou para o chão e todo o lixo jogado. De onde surgia tanto lixo? Não se lembrava de ver alguém por aquelas ruas, nem ninguém nas casas. Foi quando olhou para o lado, e pela janela pode ver uma menina. A garota aparentava ter a sua idade, apesar de não saber bem ao certo quantos anos tinha. O ponto é que o rapaz se encantou. Pensou em bater na porta e dizer algo como... dizer o que? Não vinham palavras em sua boca, mas nenhuma palavra jamais saiu de sua boca. Continuou seu trajeto até sua casa.
No dia seguinte seguiu para a mesma rua, apenas observando a jovem. Foi quando ouviu um som, um som doce que trazia alguma vida para aquele estranho mundo sem vida. Percebeu que a jovem fazia algo. Mas que objeto era aquele? O que eram aquelas coisas que se moviam com os seus dedos. Sentiu uma curiosidade imensa ao observar a jovem tocando piano. Ela parecia feliz. Sorria o tempo todo. De repente, o rapaz sorriu. Sorriu e continuou ali parado apenas a observando.
Seguiram-se muitos dias iguais aos outros, e essa sua nova rotina estava lhe fazendo muito bem. Parecia saudável, alegre, e mais que tudo... estava apaixonado. Mas nunca lhe diria nada. Apenas ficava ali a observar. Conforme ia passando o tempo, e aquela nova sensação lhe tomava por inteiro, começou a encontrar mais pessoas pela rua. De uma hora pra outra Lugar Nenhum já poderia mudar de nome por Algum Lugar. Aliás, foi exatamente isso que aconteceu. Sua rua, agora chamada de Qualquer, continuava com o 0 pendurado na casa, mas as coisas pareciam estar mudando. Ouvia sons. Sons de qualquer coisa, até mesmo o som do silêncio. A sensação que lhe passava é que tinha saído de um filme mudo para um filme com sons. Assistia filmes e pensava. Já conseguia dormir. Mas não sonhava. Não sabia o porque, mas ainda não sonhava.
Observava a jovem, como todos os dias, mas dessa vez seu olhar foi respondido com um olhar vindo da mesma. Ficaram assim talvez por poucos segundos, mas segundos que duraram algumas horas. Virou-se e saiu pela rua. Chegou em sua residência e continuou com aquela sensação esquisita. Tentou dormir, já que agora era algo que fazia. Não conseguiu. Tentou mais um vez. Nada. Na terceira tentativa, o sono veio. O sono e o sonho acompanhando o mesmo:
Ele não podia sonhar. Triste fato que lhe acompanhava desde sempre. Nunca sonhou absolutamente nada. E não se tratava do tipo de pessoa que sonha e na manhã seguinte não se recorda. Simplesmente não sonhava. Mas isso tinha um porque: ele não dormia. Nunca dormiu, nunca sentiu sono, cansaço. Irônico é o fato de se cansar de não estar cansado. Era um mistério.

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